O Agro é tóxico??

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Entenda os agrotóxicos e o que são, como são classificados, os tipos e os riscos para quem trabalha diretamente com eles e quem os come, além de compreender sua importância para a humanidade.

É no mínimo preocupante a utilização de agrotóxicos no Brasil. Assistimos nos últimos anos a crescente liberação de agrotóxicos no país: em 2017 foram aprovados para registro 405 produtos ligados a agrotóxicos; em 2018 foram registrados 450 produtos e somente nos 2 primeiros meses de 2019, foram aprovados 74 produtos ligados a agrotóxicos.

Os agrotóxicos são classificados pela ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) de acordo com sua toxicidade em: Classe I, considerados extremamente tóxicos; Classe II, que são os altamente tóxicos; Classe III, aqueles medianamente tóxicos; e Classe VI, pouco tóxicos. Infelizmente, a maioria dos agrotóxicos aprovados no Brasil é da Classe I, o que representa perigo iminente à saúde dos trabalhadores e também dos consumidores.

Observe com atenção a tabela abaixo

Classificação Toxicológica e Ambiental dos Agrotóxicos

Definitivamente o Brasil está caminhando na contramão mundial quando o assunto é agrotóxico, não à toa somos campeões mundiais no consumo desses produtos químicos prejudiciais à saúde, à economia e ao meio ambiente. Conforme já exposto no artigo “Brasileiros consomem 7 litros de agrotóxicos por ano” (clique aqui para acessar), o Brasil ocupa o primeiro lugar no ranking de países que mais consomem agrotóxicos, são, em média, 7 litros de veneno consumidos a cada ano por cada brasileiro.

Onde o veneno esta?

50% dos agrotóxicos liberados e utilizados no Brasil são proibidos na Europa, EUA, Canadá e Austrália

As culturas agrícolas que mais consomem defensivos são soja, milho, cana-de-açúcar e algodão, segundo o dossiê sobre agrotóxicos da Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva)

O herbicida glifosato, o mais usado no Brasil, e os inseticidas malationa e diazinona, foram apontados como prováveis agentes carcinogênicos por uma pesquisa da IARC (Agência Internacional de Pesquisa em Câncer)

O carbofurano, que ainda é permitido no Brasil, pode causar câncer, mutações e malformações fetais

E quais são as consequências para a economia?

O fato do Brasil liberar o uso de agrotóxicos já proibidos por diversos países também tem consequências econômicas como os gastos do sistema de saúde com internações e tratamentos para os sintomas e doenças causados pela exposição a agrotóxicos; e também as perdas econômicas relacionadas a barreiras técnico-sanitárias a produtos brasileiros exportados.

Devemos lembrar que nosso país é majoritariamente primário exportador, isto é, a pauta de exportações é baseada principalmente em commodities como, por exemplo, soja, açúcar, frango, carne bovina e café, que representam as commodities mais exportadas pelo Brasil em 2018, como informado pela SECEX (Secretária de Comércio Exterior). Reconhecidamente um dos maiores países agro-exportadores do mundo, o Brasil recebeu a alcunha de “celeiro do mundo” devido a sua capacidade produtiva de commodities agrícolas. Esse fato adicionado a questão do agronegócio brasileiro fazer uso de agrotóxicos proibidos em diversos países, coloca em risco as relações comerciais estabelecidas com esses países, e, consequentemente, representa um grande risco para a economia do país.

As barreiras técnico-sanitárias são mecanismos criados para impedir a entrada de alimentos que não atendam às normas sanitárias estabelecidas pelos países importadores para a preservação da saúde pública. Já ocorreram diversos casos em que as commodities brasileiras enfrentaram barreiras para a exportação devido ao uso de agrotóxicos durante o cultivo, como, por exemplo, em 2012 com a exportação de laranjas para os EUA, as autoridades de saúde americana detectou a presença da pesticida carbendazin, que apesar de permitida no Brasil não era autorizada nos EUA.

A soja (principal commodity brasileira exportada) está sobre a mira do governo da Noruega devido aos agrotóxicos utilizados no cultivo da soja. O país nórdico tem aumentado as exigências para importação do grão, que somente é importado se receber a certificação de boas práticas, um tipo de selo que atesta a sustentabilidade social e ambiental do cultivo. Esse comportamento da Noruega tende a ser adotado por outros países, já que, os mercados estão cada vez mais concorridos e seletivos com o que é de fato importado. Por isso, a tendência de liberação de agrotóxicos no Brasil que são proibidos em vários outros países pode representar um tiro no pé da nossa própria economia.

Impactos no Meio Ambiente

Os agrotóxicos também impactam cada vez mais o meio ambiente e as interações biológicas de vários biomas, e como o somos parte integrante da natureza também somos afetados mesmo que de forma indireta. Os agrotóxicos utilizados no cultivo de culturas agrícolas além de penetrarem nos alimentos que consumimos, igualmente atingem o solo e corpos hídricos.

A contaminação do solo afeta a fertilidade e produtividade, além de contaminar as futuras plantações de culturas que sejam feitas naquele terreno. Esta queda de fertilidade causada pelo uso de agrotóxicos acaba incorrendo em um círculo vicioso, onde será necessária a cada novo ciclo de plantação a utilização cada vez maior de produtos químicos para aumentar a fertilidade do solo, que tende a ser cada vez menor a cada novo ciclo de plantação. Essa relação inversamente proporcional entre o uso de produtos químicos e a fertilidade do solo tende a seguir uma progressão elevada que, a longo prazo, afetará não apenas a disposição de terras férteis para o cultivo, como também a produtividade por hectare, fazendo com que as plantações sejam cada vez menos rentáveis economicamente.

A contaminação da água não se restringe apenas às proximidades dos locais de plantio, atualmente 1 em 4 municípios brasileiros possuem suas águas contaminadas por agrotóxicos, segundo informações do Ministério da Saúde. Este fato se agrava ainda mais porque foi constatado que a contaminação da água acontece com os 27 agrotóxicos considerados pela ANVISA como Classe I (extremamente tóxicos) e Classe II (altamente tóxicos). Novamente notamos que os impactos ambientais afetam também a sociedade, nesse caso as consequências são doenças crônicas já citadas anteriormente. E esse cenário é perverso, pois a contaminação da água vem aumentando constantemente nos últimos anos e o pior, os testes realizados para a detecção de contaminação não são divulgados de forma compreensível, o que resulta em assimetria de informação para a população, que fica sem conhecer os reais riscos da água consumida.

Além destes, outro impacto tem gerado grande preocupação de pesquisadores e da mídia, o desaparecimento das abelhas. Pesquisas recentes que deram origem ao Relatório Temático de Polinização, Polinizadores e Produção de Alimentos, apontam que os agrotóxicos também afetam consideravelmente o tempo de vida das abelhas, em alguns casos a redução do tempo de vida chega a 50% do que é considerado o padrão. A situação é grave, já que, além de comprometer a produção de mel, também ameaça a polinização de várias espécies da flora como todas as frutas comestíveis. Mais uma vez é possível notar a relação entre meio ambiente (o desaparecimento das abelhas), sociedade (sem as abelhas o serviço de polinização natural deixaria de ocorrer e o cultivo de culturas seria gravemente prejudicado podendo chegar a ser impossibilitado) e economia (a agricultura depende grandemente do serviço de polinização das abelhas, os custos para realizar esse processo de forma artificial seriam muito altos, em torno de R$ 43 bilhões ao ano).

Diante de tudo isso, é possível notar que a liberação do uso de agrotóxicos, proibidos em vários outros países, representa bem mais pressões políticas da bancada ruralista e do agronegócio, que tem o foco de planejamento apenas a curto prazo e obtenção de lucro a qualquer custo, do que de fato o interesse em real no crescimento sustentável da economia do país respeitando as interações com a sociedade e o meio ambiente.